quinta-feira, 13 de novembro de 2008

o seu a seu dono

quando te reconheço grande, fazes sentir-me enorme por me sentar
a teu lado
quando não vires em mim grandeza
serei o menor de entre os pequenos

.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

quando adormeço

se já nada disto te pode ferir
não existe uma escola que ensine a viver
as pessoas escondem-se ou apenas existem

feridas que ficam e dedos que partem
dores da madrugada, os sonhos que já não tens
a cidade adormece

esquecer os homens esquecer a Deus

e quando adormeces também, já nada importa
porque quando dormes és tão inocente como
todos os homens

.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O homem nove dezoito

agora sou um copo de água
tão transparente e inodor como um copo de água

a àgua molda-se e esse copo vazio de sabor
a esse corpo vazio sem valor

sou um brinquedo
nada mais que um brinquedo
salobro

perco a razão de ser porque não sou o que sou
sou o desperdício de mim próprio
consumo-me sem chama e cada minuto em que não sou eu próprio, é mais um copo

preocupo-me com as estrelas e com as ondas do mar
com a chuva e os ventos que existem sem mim

sou eu por 24
as horas do dia em que me encaixo nos ponteiros do relógio de um deus indiferente
compassos de uma melodia quadrada de 1/24

(amanhã vai ser diferente)

amanhã vou ser eu sobre o tempo
porque eu sou mais que o tempo

terça-feira, 14 de outubro de 2008

à velocidade do tempo

estas páginas vazias
é o tempo a passar por mim
não me toca, é uma brisa que não me diz palavra
contorna-me sem mãos e sem traço deixando
só o vestígio dos dias

os dias fazem-me cada vez mais antigo

não me sinto coleccionável
eu devagar,
e o tempo cada vez mais depressa

já quase não há lugares onde o tempo seja eterno

tenho medo das alturas, mas quando as desafio o tempo é verdadeiro
e passa
à velocidade do tempo

na banheira deslizo e mergulho a cabeça
lentamente
sustenho a respiração e o tempo
é à velocidade do tempo
abro os olhos, que ficam a olhar para o tecto
ou para lá dele
é tudo branco

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

mão na lapela do chapéu

deixa-me rodear-me assim de tudo o que é degradante
antes esta companhia do que a mediocridade do costume.
despem-se os corpos da pele de cordeiro e todos os dentes são incisivos,
navalhas que cortam as conservadoras máscaras, inexpressivas
desesperadas
venha esse vento de outra era,
o acto primal que me faz saber quem sou.

assim estou mais perto de mim

antes a solidão na dor que a dor da solidão. a solidão
das ideias está proibida.
lá,
é um lugar sempre distante
viver no fio da navalha
fugindo do que me aguarda a cada esquina

este não é um lugar sozinho
apesar de não nos falarmos, cruzo-me
comigo a todo o instante
e basta um aceno de cabeça, ou um gesto da mão na lapela do chapéu
para trazer a cumplicidade

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Sol de Inverno

se bebêssemos hoje, até o corpo não aguentar mais,
até a língua se nos enrolar na dicção das palavras mais simples;
de barrigas cheias como abades e a roupa fumada das brasas,
beberíamos mais um copo ainda.

"o vinho até aos sábios faz apostatar"

- vira mais um copo que este é bem frutado!

se o resultado fosse bom (e se não fosse)
iamos nós, os resistentes,
onde pudéssemos exteriorizar o nosso extremismo
a noite e o exagero de cada um.
e onde pudéssemos dar continuidade à nossa sede.

e se encontrasse aí nesse lugar junto ao mar
ela
de beleza extrema ao primeiro olhar, na carcaça
envolveriamos os corpos na luxúria do prazer pré-carnal.
e independentes de tudo o resto, haveria um momento.
fugaz
em que mesmo sem ser percebido,
por ti, ou talvez por mim mesmo,
eu ia abraçá-la com amor

o amor incondicional e aprisionado,
humedecido e negro, mas amor
abraçava-a com esse amor,
o que se tem e que apenas pode ser dado

aquele que é uma troca, apenas porque
te permite o mundo
ser quem és

ela nem ia perceber
que entre dois abraços de luxúria carnal
houve um que foi de amor.

e em verdade, quem o percebeu alguma vez?

domingo, 17 de agosto de 2008

ensaio sobre a lucidez

cada vez é mais real
(quero ver onde isto vai parar)
esta lucidez é tão generosa que não vejo
onde me vai ser cobrado tudo isto

é como se estivesse sobre uma luz polar da antárctida
não sou capaz de cerrar os olhos

luz demais também nos impede de ver

amor
quero morrer nos braços do amor em que morri
em que se morre todas as manhãs
mas eu sei que esses braços fui eu que inventei...

é por saber tão bem ler esta verdade, que penso
que nunca morri em braços que não fossem os meus.
...é por isso que não morro em ninguém.
estou cansado.

talvez um dia destes me deixe enganar
e adormeça devagar nos braços de alguém.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

de vários tamanhos

somos todos humanos mas temos vários tamanhos.

somos do tamanho do poder de realizar os nossos sonhos
só podemos esperar sonhar ao alcance do nosso poder.
idealmente,
exactamente sobre o limite da nossa capacidade de sonhar.
pois de ambos os lados se queda o desespero.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

onde está a morte de um livro

tenho livros encostados ao fundo da prateleira
sobrepostos como corpos cansados
esvaídos de forças e de alma,
sem o saberem.
tenho livros que não sabem que nunca vão ser lidos.

nunca lho direi
porque a dor (aquela dor que os livros têm)
seria lenta e eterna.
o que fariam as páginas em tal desespero?
será que um dia, quando lido, se poderia ler o desespero nessas entrelinhas?

onde está a morte de um livro?

talvez morra apenas quando lido
quando a vida chega ao fim

[FIM]

o único fim é o da última página
depois disso a destruição

uma janela aberta e uma chuva intensa,
um cão que morde e saliva e espalha os restos pelo quarto

ou os vermes que lentamente o habitam
e o devoram... lentamente
de dentro para fora.
(como a mim)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

nos braços de Morfeu

todo o despertar é violento
tal como toda a concepção é dolorosa
todas as manhãs são um renascer
quando a luz do amanhecer rompe as pálpebras dos meus olhos, rasgando a última tela do sonho que visiono na madrugada

acordo

a madrugada não quer saber que eu sonho
o sol não sabe nem quer saber que sonho
não importa que o saibam porque de toda a forma
me despertarão todos os dias até à minha morte

é a forma crua como me atiram para a luz
que me dói
impiedosos, violentos
o amanhecer é um ataque à traição, um golpe mesmo ao centro das costas

noites em que pediria com toda a humildade que o dia não viesse
que a manhã não viesse... talvez nunca

na vida como na morte, talvez prefira as trevas
não para esconder, mas para nas trevas me ver mais além

a noite virá sempre para acolher o meu corpo cansado
até ao dia em que será pesado demais para que desperte

e nesse dia eu venço a madrugada

quinta-feira, 24 de julho de 2008

passional

consigo escrever
sou um detective no meu pensamento
e lentamente vou tentando compreender as pistas do crime que é
escrever as coisas que escrevo.

ou penso

para a merda com a tecnologia invasiva

...

terça-feira, 15 de julho de 2008

pelotão de fuzil

tenho um coração de guerra
onde crivas os beijos à lei da bala.
sou líder do pelotão por oferecer assim
o peito aberto ao discernimento do meu maior inimigo
(que és tu, meu amor)
elegem-me então como acto de coragem,
sem saberem que apenas ofereço esta belindagem
porque não o sei de outra forma

ténue existência suicida

coração bainha de espada
onde palavras afiadas são gumes que me trespassam
não resisto, abro a guarda

orgulho-me do peito que navega no desejo do inimigo
sou o inimigo perfeito

tenho coração de fuzilado
e sem vendas sorrio nos olhos do meu pelotão

sou dedo no gatilho se coragem lhe faltar
(dedo reticente e nervoso na arma)
olhos fechados e fogo no cano

amo o meu inimigo
porque me destrói mais do que sou capaz

o meu inimigo és tu, meu amor

segunda-feira, 14 de julho de 2008

moderada dor

nada me apetece
o sol brilha e nada me apetece
percebi então que o sol apenas brilha quando eu quero
e chovem dores sobre os raios de sol
sempre que eu quero

dói-me o céu azul, cortam-me ondas de espuma branca

por isso sofro
não podemos magoar o que amamos
dói-me sempre que me falas e não me falas amor
dizes-me coisas diferentes, por vezes normais

dói-me que tudo o que digas não seja apenas uma palavra
amor
repetida até deixar de ser palavra

quinta-feira, 10 de julho de 2008

cinquenta escudos

há quem diga que esta terra é terra de loucos
há quem diga que esta terra é a terra do vento
Eu acho que é a minha terra

há um dos que o dizem loucos
que usa uma pele de tez escura, barbas longas e um cabelo branco desgrenhado que nem chega bem a ser uma carapinha.
traz com ele sempre uma mochila às costas. pendurada... creio que, no braço esquerdo
o direito é aquele que leva a mão à boca,
quando passa à noite e pede um cigarro

"eu não fumo"
ele não insiste,
pede-me cinquenta escudos
da primeira vez fiquei surpreendido, não fui capaz de lhe responder pelo tempo que lhe deve ter parecido uma eternidade.
(escudos)
depois lá reagi, levando as mãos aos bolsos, entregando-lhe os cêntimos de que pude prescindir.

ele nunca insiste
pede com uma leveza que parece conversar
nem sei que palavras usa quando pede,
não sei se chega a pedir

mas ele continuou todas as vezes a pedir cinquenta escudos, e eu,
a dada altura, deixei de me perguntar se ele saberia que os escudos já não existem
pensei que talvez isso não importe,
que o pequeno tasco na rua escura e apertada junto à estação,
onde ele entrega os escudos em troca da jinjinha
talvez lá não importe se os escudos são escudos, ou cêntimos

era de esperar que ele incomodasse, mas a verdade
é que dou por mim a gostar de o ver.
costumo dar um passeio a pé depois de jantar (quando o vento o permite)
e eu gosto de o ver
ele é sempre tão educado a pedir.
apetece-me conversar com ele mas sou eu quem não quer incomodar

por vezes apanho-o sentado nalgum banco de jardim a olhar para uma folha de papel. pergunto-me se está a ler, se sabe ler
ele, com a garrafa de vinho escondida num saco de plástico,
leva-a à boca
mas nunca sem primeiro lançar um olhar vigilante para cada lado. talvez para ter a certeza de que está sozinho.
ali está ele por trás dos carros, a beber às escondidas

uma noite era véspera de natal e fui encontrá-lo
sozinho
sentado num banco, de costas curvadas e os cotovelos sobre os joelhos
com o rosto escondido entre as mãos
dessa vez não era a bebida que ele escondia dos olhares de quem passava
eram as lágrimas que o vi chorar

quarta-feira, 2 de julho de 2008

legado

quando olho o mar desta forma
tudo o que procuro é
um momento de eternidade
demoro o meu olhar em todas as coisas, esperando
que possam assim ser mais eternas

há tantas coisas que eu queria que fossem eternas

queria tanto ser vários e poder
ser eterno em cada uma delas

este mar que me olha é eterno
e estas ondas são, praticamente eternas
invejo-lhe este pôr-do-sol que é
todos os dias eterno

todas as coisas que eu amo, amo-as
eternamente
querendo que para sempre me toquem a pele, me soem aos ouvidos
me invadam os olhos e a língua repleta de sabores intensos dessa eternidade

tudo o que é belo
é-o eternamente
e um dia os meus olhos estarão para sempre
vazios de tudo

sem que nada em mim se tenha tornado eterno

gostava de deixar alguma coisa que pudesse ser eterna

segunda-feira, 30 de junho de 2008

para não o acordar

chamava-se Alice
Alice de olhos verdes intensos
quer dizer, não eram verdes. verdes eram as lentes de contacto que usava
mas eram intensos
chegava a casa de uma longa noite de trabalho e os saltos (bem altos)
faziam-lhe doer os pés. um aperto e uma rigidez que a faziam ficar com aquele ar impaciente
só queria chegar a casa e atirar com eles
um duche bem quente
pés descalços no chão de madeira flutuante da sala
lcabelos negros e longos escorridos no sofá castanho e gasto da sala
e ver um filme
qualquer filme
(ou não eram longos os cabelos, eram extensões, mas eram negros)
apagava o cigarro no cinzeiro do carro e a beata luzia a espaços como se quisesse dizer que ainda não estava extinta a chama.
uma marca de batôn cor-de-rosa choque formava uns lábios falsos na escuridão

dentro em pouco o sinal estaria verde como as suas lentes de contacto
arrancava em direcção à casa escura onde Alberto a esperava.
a saia justa incomodava-a e dificultava a condução, a maquilhagem cansava-lhe a expressão.
no carro do lado, dois jovens com hormonas irrequietas e duas garrafas de cerveja mini nas mãos, apitavam e gesticulavam agitadamente
riam e não deixavam perceber se o que diziam a ela não seria apenas um para o outro.
os cabelos empinados e o nariz a condizer,
o brinco e a roupa à estrela de futebol
nada enganava
eles não teriam mais vinte e poucos anos de (imatur)idade
Alice fazia-lhes um enormíssimo manguito em resposta, o que nem um pouco os incomodou. pelo contrário, o entusiasmo ainda foi maior e não resistiram a segui-la pela marginal
apitando, fazendo sinais de luzes, conduzindo lado a lado e pedindo por gestos o número de telemóvel.
(és toda boa)

durou até se fartarem
durou até ao semáfero seguinte...
Alice desmontou do carro e os saltos bateram no chão com a força com que bateu a porta do carro
Alice era esguia e o vento moldava-lhe a roupa, frisando ainda mais o seu decote exagerado.
fechou devagar a porta de casa para não o acordar.
atirou as chaves para a poltrona, tirou os brincos que eram longos losangos cor-de-rosa e desceu dos saltos
(não atirou com eles)
umas contra as outras, as pulseiras "chocalhavam" as cores que faziam pandan com a mala e os sapatos e talvez até com os brincos
entrou no duche e já despida (de roupa e adereços) pensou que tinha que ir à manicure

amaciou o corpo com as mãos e lembrou-se, com um sorriso satisfeito, dos rapazes novos no carro do lado

estas unhas estão uma lástima!
as mesmas unhas de gel com que arranhou loucamente as costas do José
sorriu mais uma vez ao pensar na última noite de sexo bruto e selvagem
ele era irresistível quando a olhava
só de o ver...
bem vestido, bem falante,
aparecia sempre com o modelo do desportivo do momento. chegava e fazia furor.
as férias da moda o café da moda a discoteca da moda. o José tinha cartão e entrada livre em todo o lugar.
um charme trabalhado até ao relógio rolex a espreitar por baixo do punho da camisa ou o bronze de solário que lhe dourava o sorriso número 3
o José sabia tão bem o que dizer para a deixar de pernas trémulas

o José não era como o Alberto
o José tinha chama

terça-feira, 17 de junho de 2008

recôndita memória

deixaram o meu corpo cair
que não se moveu desde a solidão.
porque os lençóis da minha cama não têm braços que impeçam os corpos de partir.
(viro-me sobre o meu ombro esquerdo)
e os meus braços vertem a ansiedade que me nasce no peito.
os braços buscam suavemente pela branquidão cetinosa, por um corpo,
que permita o meu

o corpo procura somente outro corpo, para provar que ainda não
se esqueceu de como amar
a mente já o esqueceu.

mas e o corpo?
onde se esconde a memória do corpo?

domingo, 15 de junho de 2008

Um livro não se lê duas vezes

a normalidade nunca foi nada que desejasse
toda a vida (como todo o adolescente) de olhos grandes que descobrem o mundo, procurei e televisionei, toda a minha vida nos extremos. intensa e ofegante, no limiar do abismo.
lições lições lições
cruzei-me no outro dia com o Baptista Neves e ele espantou-se com o "estado das coisas"
depois das perguntas da praxe, uma boa meia hora perdida a partilhar a vida com um amigo.
passámos uns belos anos juntos, pois claro que passámos,
na idade de olhares tímidos, de atirar bilhetes às meninas e durante as aulas pregar partidas aos amigos.
veio-me com as expressões mais previsíveis que foi capaz de arranjar:
"a sério?" "então e corre bem?" "sempre soube que terias uma profissão diferente... mas..."
eu esperava, e acenava com a cabeça, creio que cheguei a dizer "pois" por duas ou três vezes.

por trás dele via uma criança com idade de metro e picos, que apanhava conchinhas (ou lá o que era) e as guardava num boné redondo e branco. e isso interessava-me muito mais.

pensei se devia perguntar-lhe também o que fazia e como estava, mas a verdade é que isso não me podia interessar menos. só queria ver-me livre deste pedaço de história o mais rápido possível.
fico irritado comigo próprio porque esperava mais de mim. "nem uma pergunta miserável?"
- então, onde estás a morar?
e isto só serve para me irritar ainda mais ao ponto de não escutar sequer a resposta. é este o teu dom? (ao menos) que tivesse àvontade com as palavras
desisti nesse momento,
daí para a frente disse nada e perguntei coisa alguma.
(lá atrás o menino corria descompassado parar mais uma leva de conchas)
voltei ao meu registo de acenar com a cabeça e dizer hmm e outros mugidos que me iam parecendo adequados

regressar a um passado é uma coisa que me incomoda

estávamos ali, a repetir episódios (pela milésima primeira vez) para ambos podermos continuar a pensar que tinhamos algo em comum
que fazia sentido estarmos ali a falar hoje, debaixo daquele sol abrasador que já me fazia suar das têmporas e desejar um banho de àgua fria, mais do que há dez longos minutos

não me apetece partilhar nada
esse amigo já não me conhece, fomos amigos na idade da descoberta, (e que belos amigos fomos)
a vida levou-nos a perder o rasto, aceitemos que foi e já não é
tudo foi ou é, e continuamos amigos na história que nos fez homens.

não serás mais meu amigo porque hoje te digo o que faço, o que tenho, o que quero, exibindo onde consegui chegar
não adianta, vamos continuar a ser estranhos
no fim vamos trocar os números de telefone e dizer os dois que vamos telefonar um ao outro "um dia destes"
mas não vamos
porque não nos apetece

eu preferia ter olhado para o lado, fingir que não nos tinhamos visto,
lembrar essa amizade que foi grande.
sem conversas.
porque tu quereres mostrar que és um homem e eu que sou alguém
e nenhum de nós vai falar amizade

eu sei que já não és um miúdo e que eu não sou um miúdo,
mas deixa-me recordar para sempre assim a nossa amizade.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

comiserável

aguardas nesse canto mais escuro do teu quarto
(esse quarto a que sempre regressas)
por um momento,
toda a tua vida aguardaste esse momento.
um momento de sonho e de pura perfeição
a tua oportunidade de ser grande, o teu momento mais único e exclusivo
um momento do expoente máximo da tua existência
algo que não podia ser de ninguém senão teu
a tua marca no mundo a tua razão de existir desde o dia em que abandonaste
(olhando para trás)
o ventre seguro da tua mãe

(és genial)
e ali estás... atento
como o caçador aguarda a presa, que, inocente se coloca na mira do caçador
é assim que sabes que vais caçar a tua oportunidade
ela não vai ter evasão possivel, porque tu já esperaste por ela
toda a vida

tu és paciente

(como te disseram que tinhas que ser)
agora estás atrás de um arbusto.
não é grande mas cobre-te o corpo
e tu estás tão disfarçado que sabes que nunca poderias ser descoberto
tu sabe-lo, tão bem...
quase te dá vontade de rir
fizeste-o tão bem!

apetece-te gritar bem alto e rir a bandeiras despregadas
"olha só onde estou!" "confessa! nunca me ias encontrar aqui!"
mas conténs o impulso
(esse teu auto-controlo...)

tu estás preparado

percebes
que a barba te cresceu e a expressão dos teus olhos
é de outono
os ossos das mãos são folhas secas
e o vento
quer repouso e o teu corpo...

que o teu sonho foi sempre sonho
e o teu tempo nunca foi tempo

quarta-feira, 28 de maio de 2008

sorriso de pétalas

foi para ver-te correr que abri a porta
e sem saberes te segui até à rua

corrias com o cabelo liso e escorrido a pender-te até aos ombros
de uma cabeça oscilante
que deitavas para um lado e para outro, ao ritmo dos pés que batiam
no chão
como um tambor para o teu devaneio

os braços estavam esticados
e parecias tanto um boneco como a criança que ainda há em ti
quase podia ouvir a canção que só tu
ouvias e te fazia saltitar

lia-te a felicidade de onde estava...
e chorei.


tu sabes que às vezes eu choro

depois destes anos continuas a perguntar-me porquê.
eu respondo sempre que não estou a chorar
mas as lágrimas chamam-me mentiroso

tu não dizes nada
o silencio instala-se e ficamos sempre nesta terna cumplicidade
eu sei que tu sabes porque eu choro
mesmo que não me compreendas

terça-feira, 13 de maio de 2008

Pertinácia

escavo um buraco com as mãos na terra
(entranha-se nas unhas que ficam negras)
e quanto mais escavo, mais longe quero ir.
sem sequer compreender ou pensar, que vou ter que fazer
alguma coisa com a terra
que se amontoa em meu redor.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

ponteiros do relógio

olha o ponteiro dos segundos
(eu olho)
sei onde estás e o que fazes
mas ainda assim gosto de olhar o relógio no pulso.

mentira, não gosto,
mas olho
e no momento em que olho, eu não tenho alma
fugiu-me
ela é grande demais para que a tenha perdido ou
deixado nalgum lugar sem que me lembre

sei-o pelas coisas que com ela faço
mas a minha alma é estranha
porque ou está em mim ou está em ti
nunca está nas coisas.

eu acho que era normal termos a alma nas coisas:
agora no relógio, agora na sola dos sapatos, agora na chave que meto à porta
agora no isqueiro com que acendo o cigarro... olha...
agora ficava bonita neste fumo que se liberta e dança nos meus lábios
( )
(parece que escorre nas partículas do ar frio que me gela a cara e as mãos)

mas não
a minha alma ou está em mim ou em ti
nunca está nas coisas.

domingo, 4 de maio de 2008

áfrica minha

estava a tomar um chá com a minha avó e sem saber como, a conversa foi parar aos tempos de áfrica
(falamos sempre dos tempos de áfrica)
em pequeno, lembro-me de insistir
"avó, conta-me uma história de àfrica" "conta aquela do leão" "conta a da gibóia" "conta aquelas da manhiça" "conta-me como o régulo ofereceu a sua casa ao avô quando a guerra chegou"
(conta-me todas avó... eu não estava lá)
conta-me todas as histórias até elas serem tão minhas como tuas.

estou em cada dia africano.
recordo todas as histórias e consigo ver as cores de tudo o que se passou.
não sonhei (não se sonha a cores) eu estive mesmo lá,
antes de ter nascido

cada vez que oiço as tuas histórias aumenta-me a dor

a dor de existir

ah soubesse ao menos escrever
se eu soubesse escrever tão bem como sei olhar...
quantas vezes pensei pedir a alguém com mais arte que eu
alguém que pudesse partilhar estas horas em que, à lareira, vejo tudo acontecer

áfrica tem tanto para contar
e tu tens tanto para contar avó...
o avô deixou-me tão cedo!
só me lembro de ele ver bastante mal.
(uma vez mal me viu a mim)
e lembro de chamar-me filósofo.

não é justo que toda esta áfrica se perca, só porque não tenho talento

então veio a tristeza
este mal estar em que só sei agoniar e entristecer

tanto mundo se perde quando lhe falta um narrador
quanta vida

é disto que a vida é feita
e é isto que me agonia na morte
o dever por cumprir,
o cedo demais para esquecer

nada é eterno, e essa é a injustiça das coisas.
todos os momentos deviam ser eternos, pelo menos, até alguém os poder eternizar

e todo este desgosto
esta dor de esquecimento do passado que não vivi
talvez me doa apenas, e mais, porque me atira que
também eu serei esquecido.
e ao que vejo, bem antes desta África que me fala...

um dia serei nada ou pó
e estas histórias serão como eu.
creio que não importará se aconteceram ou não
(eu certamente não importarei)


ninguém sobrevive

terça-feira, 29 de abril de 2008

Ser poeta

há quem diga que o poeta é o homem infeliz
sendo isto verdade,
ou não sou poeta ou estou ainda mais enganado


Buscas ingratas

a poesia não se procura
encontra-se
ela está em todas as coisas: em cada flôr, em cada canto da cidade
em cada pedra,
em todo o chão
se não a vês são os teus olhos
procura outro olhar,
não a poesia

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Feras noctívagas

o inverno trouxe a solidão
e o som dos passos no escuro

ouvidos cheios de ecos permentes
e braços caídos com garras de leão
agendas vazias de letras
e datas marcadas sem dias para existir

a chuva na pedra e no chão
e na cabeça de quem assim quis...
(ou a quem talvez não importe)

nada mais
o dia esvai-se e memórias intermitentes visitam os sonhos

foi inverno

e o inverno trouxe a solidão
e o som dos passos no escuro...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Uma visão

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e receba grátis uma visão

segunda-feira, 21 de abril de 2008

convalescente

o meu coração é
(neste preciso momento)
uma cama de hospital
e os meus dedos bisturis
que dissecam, não sem dor
que é bem vinda.
mais!!
pedes da próxima vez.
até eu revelar todo o meu extremismo
que um dia será demais.
será sempre demais.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Dialectos

olhou para mim com o seu ar confuso
(talvez até desconfiada)
faço sua comida?
eu atirado no sofá, mais caído do que sentado respondi que não,
eu como mais tarde
nada na expressão dela se alterou
lête? perguntou-me confusa

quero chorar

quero chorar como uma criança desamparada
mas já não sei chorar
só sei olhar assim o infinito
e sentir esta solidão. esta pedra.


sábado, 12 de abril de 2008

Do caminho se fez homem

como pode ser negado caminhar a quem do caminho se fez a sí próprio?
os passos são facas afiadas na carne que só trazem a paz no banco de pedra.

quanta ingratidão pregares ao chão pés que eram teus
tanto mundo que fiz meu, e a mim me fez quem sou

será que não vês?
fui eu quem te fez, a ti, mais chão do que chão
tantos anos juntos
que contaste às escondidas e agora me cobras...

finjo não sentir a dor (não a da carne) da tua traição
e a cada dia me crescem raízes que me fazem mais pequeno

mas eu fui tão grande

eu devia poder voar sobre ti e sermos juntos para sempre


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um lugar de gratidão

sem desabafos
sem pudor, pensar que o desejo da gratidão possa ser uma forma de egoísmo
de elevação de uma baixa auto-estima
quando uma idosa atravessou a estrada em segurança por nossa culpa. é justo pensar que nos deve sorrir?
"é uma velhinha dizem do outro lado da rua"
(o raio da velha que ocupa todo o passeio com a bengala, espero que se despache e me saia mas é da frente)
quem és tu?
estendo-te a mão porque sei que precisas de mim. não sou o buda.
o buda não é o buda
só fico feliz por ver-te atravessar assim a rua. e o apreço que tenho por mim,
quando tu (velhinha), seguras com essa tua mão frágil e rugosa, a minha mão firme e jovem

é por isso que me vêm estas lágrimas aos olhos
porque tu fazes-me amar até eu chorar
sou eu quem te agradece
obrigado velhinha,
por me deixares levar-te pela mão quando atravessas a rua

quarta-feira, 2 de abril de 2008

frio

subo degraus abro a porta e fecho.
tiro a camisa que me desliza nos ombros e deixo as calças escorrerem nas pernas. e sem acender a luz
(porque de repente é muito melhor sem acender a luz)
oiço a chuva cair lá fora
(são quatro da manhã lá fora e faz frio cá dentro)
o frio é cá dentro,
quando me lembro de que é bom lembrar-me de ti.
ou se não é bom fazes-me falta.
não me perguntes de que forma.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Vindima

Não te esqueças das vindimas! É tudo vindimas.

Partida

Já parti.
não trago muita bagagem. isso resolvo à chegada.
levo umas mãos vazias.
calço sapatos cobertos do pó da estrada. vestida levo a camisa de todas as caveiras que sou e das que deixei para trás... não levo senão os monstros que ficaram.
de sonhos levo uma mão cheia
e outra vazia, que vou enchendo com os quilómetros que passam.

Sou o caminho que sou.

sexta-feira, 28 de março de 2008

A caverna

Há cerca de um ano nasceu na minha cabeça a ideia de criar este lugar. Devo admitir que não me foi facilmente vendida a ideia dos blogs. Nunca fui fã e apresentei até alguma resistência. Sempre fui fã das páginas de papel amarelado, de rabiscos,de folhas rasgadas, arrancadas, dobradas e enfiadas nos bolsos da roupa, (tingidos pela máquina de lavar). Todos os dias palavras nasceram em guardanapos de papel, cartões pessoais, facturas do supermercado, folhetos de publicidade, populando por toda a casa, sem que eu nunca tivesse o cuidado de os reunir num lugar, religiosamente.
Mas passou a fazer sentido fazer esse esforço.

É, portanto, muito tarde que me rendo ao blog, e não tenho dúvidas de que sou "ovelha" nestas andanças. Não pretendo largar o papel do moleskine (creio que não o largarei nunca). Venho aqui para abrir as portas da caverna a quem quiser entrar.

A caverna não é um lugar escuro e opressivo. É apenas algo que não está à superfície.
E não tem visitas guiadas.

As boas vindas a todos,