segunda-feira, 9 de junho de 2008

comiserável

aguardas nesse canto mais escuro do teu quarto
(esse quarto a que sempre regressas)
por um momento,
toda a tua vida aguardaste esse momento.
um momento de sonho e de pura perfeição
a tua oportunidade de ser grande, o teu momento mais único e exclusivo
um momento do expoente máximo da tua existência
algo que não podia ser de ninguém senão teu
a tua marca no mundo a tua razão de existir desde o dia em que abandonaste
(olhando para trás)
o ventre seguro da tua mãe

(és genial)
e ali estás... atento
como o caçador aguarda a presa, que, inocente se coloca na mira do caçador
é assim que sabes que vais caçar a tua oportunidade
ela não vai ter evasão possivel, porque tu já esperaste por ela
toda a vida

tu és paciente

(como te disseram que tinhas que ser)
agora estás atrás de um arbusto.
não é grande mas cobre-te o corpo
e tu estás tão disfarçado que sabes que nunca poderias ser descoberto
tu sabe-lo, tão bem...
quase te dá vontade de rir
fizeste-o tão bem!

apetece-te gritar bem alto e rir a bandeiras despregadas
"olha só onde estou!" "confessa! nunca me ias encontrar aqui!"
mas conténs o impulso
(esse teu auto-controlo...)

tu estás preparado

percebes
que a barba te cresceu e a expressão dos teus olhos
é de outono
os ossos das mãos são folhas secas
e o vento
quer repouso e o teu corpo...

que o teu sonho foi sempre sonho
e o teu tempo nunca foi tempo

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