domingo, 15 de junho de 2008

Um livro não se lê duas vezes

a normalidade nunca foi nada que desejasse
toda a vida (como todo o adolescente) de olhos grandes que descobrem o mundo, procurei e televisionei, toda a minha vida nos extremos. intensa e ofegante, no limiar do abismo.
lições lições lições
cruzei-me no outro dia com o Baptista Neves e ele espantou-se com o "estado das coisas"
depois das perguntas da praxe, uma boa meia hora perdida a partilhar a vida com um amigo.
passámos uns belos anos juntos, pois claro que passámos,
na idade de olhares tímidos, de atirar bilhetes às meninas e durante as aulas pregar partidas aos amigos.
veio-me com as expressões mais previsíveis que foi capaz de arranjar:
"a sério?" "então e corre bem?" "sempre soube que terias uma profissão diferente... mas..."
eu esperava, e acenava com a cabeça, creio que cheguei a dizer "pois" por duas ou três vezes.

por trás dele via uma criança com idade de metro e picos, que apanhava conchinhas (ou lá o que era) e as guardava num boné redondo e branco. e isso interessava-me muito mais.

pensei se devia perguntar-lhe também o que fazia e como estava, mas a verdade é que isso não me podia interessar menos. só queria ver-me livre deste pedaço de história o mais rápido possível.
fico irritado comigo próprio porque esperava mais de mim. "nem uma pergunta miserável?"
- então, onde estás a morar?
e isto só serve para me irritar ainda mais ao ponto de não escutar sequer a resposta. é este o teu dom? (ao menos) que tivesse àvontade com as palavras
desisti nesse momento,
daí para a frente disse nada e perguntei coisa alguma.
(lá atrás o menino corria descompassado parar mais uma leva de conchas)
voltei ao meu registo de acenar com a cabeça e dizer hmm e outros mugidos que me iam parecendo adequados

regressar a um passado é uma coisa que me incomoda

estávamos ali, a repetir episódios (pela milésima primeira vez) para ambos podermos continuar a pensar que tinhamos algo em comum
que fazia sentido estarmos ali a falar hoje, debaixo daquele sol abrasador que já me fazia suar das têmporas e desejar um banho de àgua fria, mais do que há dez longos minutos

não me apetece partilhar nada
esse amigo já não me conhece, fomos amigos na idade da descoberta, (e que belos amigos fomos)
a vida levou-nos a perder o rasto, aceitemos que foi e já não é
tudo foi ou é, e continuamos amigos na história que nos fez homens.

não serás mais meu amigo porque hoje te digo o que faço, o que tenho, o que quero, exibindo onde consegui chegar
não adianta, vamos continuar a ser estranhos
no fim vamos trocar os números de telefone e dizer os dois que vamos telefonar um ao outro "um dia destes"
mas não vamos
porque não nos apetece

eu preferia ter olhado para o lado, fingir que não nos tinhamos visto,
lembrar essa amizade que foi grande.
sem conversas.
porque tu quereres mostrar que és um homem e eu que sou alguém
e nenhum de nós vai falar amizade

eu sei que já não és um miúdo e que eu não sou um miúdo,
mas deixa-me recordar para sempre assim a nossa amizade.

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