terça-feira, 29 de abril de 2008

Ser poeta

há quem diga que o poeta é o homem infeliz
sendo isto verdade,
ou não sou poeta ou estou ainda mais enganado


Buscas ingratas

a poesia não se procura
encontra-se
ela está em todas as coisas: em cada flôr, em cada canto da cidade
em cada pedra,
em todo o chão
se não a vês são os teus olhos
procura outro olhar,
não a poesia

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Feras noctívagas

o inverno trouxe a solidão
e o som dos passos no escuro

ouvidos cheios de ecos permentes
e braços caídos com garras de leão
agendas vazias de letras
e datas marcadas sem dias para existir

a chuva na pedra e no chão
e na cabeça de quem assim quis...
(ou a quem talvez não importe)

nada mais
o dia esvai-se e memórias intermitentes visitam os sonhos

foi inverno

e o inverno trouxe a solidão
e o som dos passos no escuro...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Uma visão

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segunda-feira, 21 de abril de 2008

convalescente

o meu coração é
(neste preciso momento)
uma cama de hospital
e os meus dedos bisturis
que dissecam, não sem dor
que é bem vinda.
mais!!
pedes da próxima vez.
até eu revelar todo o meu extremismo
que um dia será demais.
será sempre demais.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Dialectos

olhou para mim com o seu ar confuso
(talvez até desconfiada)
faço sua comida?
eu atirado no sofá, mais caído do que sentado respondi que não,
eu como mais tarde
nada na expressão dela se alterou
lête? perguntou-me confusa

quero chorar

quero chorar como uma criança desamparada
mas já não sei chorar
só sei olhar assim o infinito
e sentir esta solidão. esta pedra.


sábado, 12 de abril de 2008

Do caminho se fez homem

como pode ser negado caminhar a quem do caminho se fez a sí próprio?
os passos são facas afiadas na carne que só trazem a paz no banco de pedra.

quanta ingratidão pregares ao chão pés que eram teus
tanto mundo que fiz meu, e a mim me fez quem sou

será que não vês?
fui eu quem te fez, a ti, mais chão do que chão
tantos anos juntos
que contaste às escondidas e agora me cobras...

finjo não sentir a dor (não a da carne) da tua traição
e a cada dia me crescem raízes que me fazem mais pequeno

mas eu fui tão grande

eu devia poder voar sobre ti e sermos juntos para sempre


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um lugar de gratidão

sem desabafos
sem pudor, pensar que o desejo da gratidão possa ser uma forma de egoísmo
de elevação de uma baixa auto-estima
quando uma idosa atravessou a estrada em segurança por nossa culpa. é justo pensar que nos deve sorrir?
"é uma velhinha dizem do outro lado da rua"
(o raio da velha que ocupa todo o passeio com a bengala, espero que se despache e me saia mas é da frente)
quem és tu?
estendo-te a mão porque sei que precisas de mim. não sou o buda.
o buda não é o buda
só fico feliz por ver-te atravessar assim a rua. e o apreço que tenho por mim,
quando tu (velhinha), seguras com essa tua mão frágil e rugosa, a minha mão firme e jovem

é por isso que me vêm estas lágrimas aos olhos
porque tu fazes-me amar até eu chorar
sou eu quem te agradece
obrigado velhinha,
por me deixares levar-te pela mão quando atravessas a rua

quarta-feira, 2 de abril de 2008

frio

subo degraus abro a porta e fecho.
tiro a camisa que me desliza nos ombros e deixo as calças escorrerem nas pernas. e sem acender a luz
(porque de repente é muito melhor sem acender a luz)
oiço a chuva cair lá fora
(são quatro da manhã lá fora e faz frio cá dentro)
o frio é cá dentro,
quando me lembro de que é bom lembrar-me de ti.
ou se não é bom fazes-me falta.
não me perguntes de que forma.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Vindima

Não te esqueças das vindimas! É tudo vindimas.

Partida

Já parti.
não trago muita bagagem. isso resolvo à chegada.
levo umas mãos vazias.
calço sapatos cobertos do pó da estrada. vestida levo a camisa de todas as caveiras que sou e das que deixei para trás... não levo senão os monstros que ficaram.
de sonhos levo uma mão cheia
e outra vazia, que vou enchendo com os quilómetros que passam.

Sou o caminho que sou.