estava a tomar um chá com a minha avó e sem saber como, a conversa foi parar aos tempos de áfrica
(falamos sempre dos tempos de áfrica)
em pequeno, lembro-me de insistir
"avó, conta-me uma história de àfrica" "conta aquela do leão" "conta a da gibóia" "conta aquelas da manhiça" "conta-me como o régulo ofereceu a sua casa ao avô quando a guerra chegou"
(conta-me todas avó... eu não estava lá)
conta-me todas as histórias até elas serem tão minhas como tuas.
estou em cada dia africano.
recordo todas as histórias e consigo ver as cores de tudo o que se passou.
não sonhei (não se sonha a cores) eu estive mesmo lá,
antes de ter nascido
cada vez que oiço as tuas histórias aumenta-me a dor
a dor de existir
ah soubesse ao menos escrever
se eu soubesse escrever tão bem como sei olhar...
quantas vezes pensei pedir a alguém com mais arte que eu
alguém que pudesse partilhar estas horas em que, à lareira, vejo tudo acontecer
áfrica tem tanto para contar
e tu tens tanto para contar avó...
o avô deixou-me tão cedo!
só me lembro de ele ver bastante mal.
(uma vez mal me viu a mim)
e lembro de chamar-me filósofo.
não é justo que toda esta áfrica se perca, só porque não tenho talento
então veio a tristeza
este mal estar em que só sei agoniar e entristecer
tanto mundo se perde quando lhe falta um narrador
quanta vida
é disto que a vida é feita
e é isto que me agonia na morte
o dever por cumprir,
o cedo demais para esquecer
nada é eterno, e essa é a injustiça das coisas.
todos os momentos deviam ser eternos, pelo menos, até alguém os poder eternizar
e todo este desgosto
esta dor de esquecimento do passado que não vivi
talvez me doa apenas, e mais, porque me atira que
também eu serei esquecido.
e ao que vejo, bem antes desta África que me fala...
um dia serei nada ou pó
e estas histórias serão como eu.
creio que não importará se aconteceram ou não
(eu certamente não importarei)
ninguém sobrevive
domingo, 4 de maio de 2008
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