quarta-feira, 30 de julho de 2008

nos braços de Morfeu

todo o despertar é violento
tal como toda a concepção é dolorosa
todas as manhãs são um renascer
quando a luz do amanhecer rompe as pálpebras dos meus olhos, rasgando a última tela do sonho que visiono na madrugada

acordo

a madrugada não quer saber que eu sonho
o sol não sabe nem quer saber que sonho
não importa que o saibam porque de toda a forma
me despertarão todos os dias até à minha morte

é a forma crua como me atiram para a luz
que me dói
impiedosos, violentos
o amanhecer é um ataque à traição, um golpe mesmo ao centro das costas

noites em que pediria com toda a humildade que o dia não viesse
que a manhã não viesse... talvez nunca

na vida como na morte, talvez prefira as trevas
não para esconder, mas para nas trevas me ver mais além

a noite virá sempre para acolher o meu corpo cansado
até ao dia em que será pesado demais para que desperte

e nesse dia eu venço a madrugada

quinta-feira, 24 de julho de 2008

passional

consigo escrever
sou um detective no meu pensamento
e lentamente vou tentando compreender as pistas do crime que é
escrever as coisas que escrevo.

ou penso

para a merda com a tecnologia invasiva

...

terça-feira, 15 de julho de 2008

pelotão de fuzil

tenho um coração de guerra
onde crivas os beijos à lei da bala.
sou líder do pelotão por oferecer assim
o peito aberto ao discernimento do meu maior inimigo
(que és tu, meu amor)
elegem-me então como acto de coragem,
sem saberem que apenas ofereço esta belindagem
porque não o sei de outra forma

ténue existência suicida

coração bainha de espada
onde palavras afiadas são gumes que me trespassam
não resisto, abro a guarda

orgulho-me do peito que navega no desejo do inimigo
sou o inimigo perfeito

tenho coração de fuzilado
e sem vendas sorrio nos olhos do meu pelotão

sou dedo no gatilho se coragem lhe faltar
(dedo reticente e nervoso na arma)
olhos fechados e fogo no cano

amo o meu inimigo
porque me destrói mais do que sou capaz

o meu inimigo és tu, meu amor

segunda-feira, 14 de julho de 2008

moderada dor

nada me apetece
o sol brilha e nada me apetece
percebi então que o sol apenas brilha quando eu quero
e chovem dores sobre os raios de sol
sempre que eu quero

dói-me o céu azul, cortam-me ondas de espuma branca

por isso sofro
não podemos magoar o que amamos
dói-me sempre que me falas e não me falas amor
dizes-me coisas diferentes, por vezes normais

dói-me que tudo o que digas não seja apenas uma palavra
amor
repetida até deixar de ser palavra

quinta-feira, 10 de julho de 2008

cinquenta escudos

há quem diga que esta terra é terra de loucos
há quem diga que esta terra é a terra do vento
Eu acho que é a minha terra

há um dos que o dizem loucos
que usa uma pele de tez escura, barbas longas e um cabelo branco desgrenhado que nem chega bem a ser uma carapinha.
traz com ele sempre uma mochila às costas. pendurada... creio que, no braço esquerdo
o direito é aquele que leva a mão à boca,
quando passa à noite e pede um cigarro

"eu não fumo"
ele não insiste,
pede-me cinquenta escudos
da primeira vez fiquei surpreendido, não fui capaz de lhe responder pelo tempo que lhe deve ter parecido uma eternidade.
(escudos)
depois lá reagi, levando as mãos aos bolsos, entregando-lhe os cêntimos de que pude prescindir.

ele nunca insiste
pede com uma leveza que parece conversar
nem sei que palavras usa quando pede,
não sei se chega a pedir

mas ele continuou todas as vezes a pedir cinquenta escudos, e eu,
a dada altura, deixei de me perguntar se ele saberia que os escudos já não existem
pensei que talvez isso não importe,
que o pequeno tasco na rua escura e apertada junto à estação,
onde ele entrega os escudos em troca da jinjinha
talvez lá não importe se os escudos são escudos, ou cêntimos

era de esperar que ele incomodasse, mas a verdade
é que dou por mim a gostar de o ver.
costumo dar um passeio a pé depois de jantar (quando o vento o permite)
e eu gosto de o ver
ele é sempre tão educado a pedir.
apetece-me conversar com ele mas sou eu quem não quer incomodar

por vezes apanho-o sentado nalgum banco de jardim a olhar para uma folha de papel. pergunto-me se está a ler, se sabe ler
ele, com a garrafa de vinho escondida num saco de plástico,
leva-a à boca
mas nunca sem primeiro lançar um olhar vigilante para cada lado. talvez para ter a certeza de que está sozinho.
ali está ele por trás dos carros, a beber às escondidas

uma noite era véspera de natal e fui encontrá-lo
sozinho
sentado num banco, de costas curvadas e os cotovelos sobre os joelhos
com o rosto escondido entre as mãos
dessa vez não era a bebida que ele escondia dos olhares de quem passava
eram as lágrimas que o vi chorar

quarta-feira, 2 de julho de 2008

legado

quando olho o mar desta forma
tudo o que procuro é
um momento de eternidade
demoro o meu olhar em todas as coisas, esperando
que possam assim ser mais eternas

há tantas coisas que eu queria que fossem eternas

queria tanto ser vários e poder
ser eterno em cada uma delas

este mar que me olha é eterno
e estas ondas são, praticamente eternas
invejo-lhe este pôr-do-sol que é
todos os dias eterno

todas as coisas que eu amo, amo-as
eternamente
querendo que para sempre me toquem a pele, me soem aos ouvidos
me invadam os olhos e a língua repleta de sabores intensos dessa eternidade

tudo o que é belo
é-o eternamente
e um dia os meus olhos estarão para sempre
vazios de tudo

sem que nada em mim se tenha tornado eterno

gostava de deixar alguma coisa que pudesse ser eterna