segunda-feira, 30 de junho de 2008

para não o acordar

chamava-se Alice
Alice de olhos verdes intensos
quer dizer, não eram verdes. verdes eram as lentes de contacto que usava
mas eram intensos
chegava a casa de uma longa noite de trabalho e os saltos (bem altos)
faziam-lhe doer os pés. um aperto e uma rigidez que a faziam ficar com aquele ar impaciente
só queria chegar a casa e atirar com eles
um duche bem quente
pés descalços no chão de madeira flutuante da sala
lcabelos negros e longos escorridos no sofá castanho e gasto da sala
e ver um filme
qualquer filme
(ou não eram longos os cabelos, eram extensões, mas eram negros)
apagava o cigarro no cinzeiro do carro e a beata luzia a espaços como se quisesse dizer que ainda não estava extinta a chama.
uma marca de batôn cor-de-rosa choque formava uns lábios falsos na escuridão

dentro em pouco o sinal estaria verde como as suas lentes de contacto
arrancava em direcção à casa escura onde Alberto a esperava.
a saia justa incomodava-a e dificultava a condução, a maquilhagem cansava-lhe a expressão.
no carro do lado, dois jovens com hormonas irrequietas e duas garrafas de cerveja mini nas mãos, apitavam e gesticulavam agitadamente
riam e não deixavam perceber se o que diziam a ela não seria apenas um para o outro.
os cabelos empinados e o nariz a condizer,
o brinco e a roupa à estrela de futebol
nada enganava
eles não teriam mais vinte e poucos anos de (imatur)idade
Alice fazia-lhes um enormíssimo manguito em resposta, o que nem um pouco os incomodou. pelo contrário, o entusiasmo ainda foi maior e não resistiram a segui-la pela marginal
apitando, fazendo sinais de luzes, conduzindo lado a lado e pedindo por gestos o número de telemóvel.
(és toda boa)

durou até se fartarem
durou até ao semáfero seguinte...
Alice desmontou do carro e os saltos bateram no chão com a força com que bateu a porta do carro
Alice era esguia e o vento moldava-lhe a roupa, frisando ainda mais o seu decote exagerado.
fechou devagar a porta de casa para não o acordar.
atirou as chaves para a poltrona, tirou os brincos que eram longos losangos cor-de-rosa e desceu dos saltos
(não atirou com eles)
umas contra as outras, as pulseiras "chocalhavam" as cores que faziam pandan com a mala e os sapatos e talvez até com os brincos
entrou no duche e já despida (de roupa e adereços) pensou que tinha que ir à manicure

amaciou o corpo com as mãos e lembrou-se, com um sorriso satisfeito, dos rapazes novos no carro do lado

estas unhas estão uma lástima!
as mesmas unhas de gel com que arranhou loucamente as costas do José
sorriu mais uma vez ao pensar na última noite de sexo bruto e selvagem
ele era irresistível quando a olhava
só de o ver...
bem vestido, bem falante,
aparecia sempre com o modelo do desportivo do momento. chegava e fazia furor.
as férias da moda o café da moda a discoteca da moda. o José tinha cartão e entrada livre em todo o lugar.
um charme trabalhado até ao relógio rolex a espreitar por baixo do punho da camisa ou o bronze de solário que lhe dourava o sorriso número 3
o José sabia tão bem o que dizer para a deixar de pernas trémulas

o José não era como o Alberto
o José tinha chama

terça-feira, 17 de junho de 2008

recôndita memória

deixaram o meu corpo cair
que não se moveu desde a solidão.
porque os lençóis da minha cama não têm braços que impeçam os corpos de partir.
(viro-me sobre o meu ombro esquerdo)
e os meus braços vertem a ansiedade que me nasce no peito.
os braços buscam suavemente pela branquidão cetinosa, por um corpo,
que permita o meu

o corpo procura somente outro corpo, para provar que ainda não
se esqueceu de como amar
a mente já o esqueceu.

mas e o corpo?
onde se esconde a memória do corpo?

domingo, 15 de junho de 2008

Um livro não se lê duas vezes

a normalidade nunca foi nada que desejasse
toda a vida (como todo o adolescente) de olhos grandes que descobrem o mundo, procurei e televisionei, toda a minha vida nos extremos. intensa e ofegante, no limiar do abismo.
lições lições lições
cruzei-me no outro dia com o Baptista Neves e ele espantou-se com o "estado das coisas"
depois das perguntas da praxe, uma boa meia hora perdida a partilhar a vida com um amigo.
passámos uns belos anos juntos, pois claro que passámos,
na idade de olhares tímidos, de atirar bilhetes às meninas e durante as aulas pregar partidas aos amigos.
veio-me com as expressões mais previsíveis que foi capaz de arranjar:
"a sério?" "então e corre bem?" "sempre soube que terias uma profissão diferente... mas..."
eu esperava, e acenava com a cabeça, creio que cheguei a dizer "pois" por duas ou três vezes.

por trás dele via uma criança com idade de metro e picos, que apanhava conchinhas (ou lá o que era) e as guardava num boné redondo e branco. e isso interessava-me muito mais.

pensei se devia perguntar-lhe também o que fazia e como estava, mas a verdade é que isso não me podia interessar menos. só queria ver-me livre deste pedaço de história o mais rápido possível.
fico irritado comigo próprio porque esperava mais de mim. "nem uma pergunta miserável?"
- então, onde estás a morar?
e isto só serve para me irritar ainda mais ao ponto de não escutar sequer a resposta. é este o teu dom? (ao menos) que tivesse àvontade com as palavras
desisti nesse momento,
daí para a frente disse nada e perguntei coisa alguma.
(lá atrás o menino corria descompassado parar mais uma leva de conchas)
voltei ao meu registo de acenar com a cabeça e dizer hmm e outros mugidos que me iam parecendo adequados

regressar a um passado é uma coisa que me incomoda

estávamos ali, a repetir episódios (pela milésima primeira vez) para ambos podermos continuar a pensar que tinhamos algo em comum
que fazia sentido estarmos ali a falar hoje, debaixo daquele sol abrasador que já me fazia suar das têmporas e desejar um banho de àgua fria, mais do que há dez longos minutos

não me apetece partilhar nada
esse amigo já não me conhece, fomos amigos na idade da descoberta, (e que belos amigos fomos)
a vida levou-nos a perder o rasto, aceitemos que foi e já não é
tudo foi ou é, e continuamos amigos na história que nos fez homens.

não serás mais meu amigo porque hoje te digo o que faço, o que tenho, o que quero, exibindo onde consegui chegar
não adianta, vamos continuar a ser estranhos
no fim vamos trocar os números de telefone e dizer os dois que vamos telefonar um ao outro "um dia destes"
mas não vamos
porque não nos apetece

eu preferia ter olhado para o lado, fingir que não nos tinhamos visto,
lembrar essa amizade que foi grande.
sem conversas.
porque tu quereres mostrar que és um homem e eu que sou alguém
e nenhum de nós vai falar amizade

eu sei que já não és um miúdo e que eu não sou um miúdo,
mas deixa-me recordar para sempre assim a nossa amizade.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

comiserável

aguardas nesse canto mais escuro do teu quarto
(esse quarto a que sempre regressas)
por um momento,
toda a tua vida aguardaste esse momento.
um momento de sonho e de pura perfeição
a tua oportunidade de ser grande, o teu momento mais único e exclusivo
um momento do expoente máximo da tua existência
algo que não podia ser de ninguém senão teu
a tua marca no mundo a tua razão de existir desde o dia em que abandonaste
(olhando para trás)
o ventre seguro da tua mãe

(és genial)
e ali estás... atento
como o caçador aguarda a presa, que, inocente se coloca na mira do caçador
é assim que sabes que vais caçar a tua oportunidade
ela não vai ter evasão possivel, porque tu já esperaste por ela
toda a vida

tu és paciente

(como te disseram que tinhas que ser)
agora estás atrás de um arbusto.
não é grande mas cobre-te o corpo
e tu estás tão disfarçado que sabes que nunca poderias ser descoberto
tu sabe-lo, tão bem...
quase te dá vontade de rir
fizeste-o tão bem!

apetece-te gritar bem alto e rir a bandeiras despregadas
"olha só onde estou!" "confessa! nunca me ias encontrar aqui!"
mas conténs o impulso
(esse teu auto-controlo...)

tu estás preparado

percebes
que a barba te cresceu e a expressão dos teus olhos
é de outono
os ossos das mãos são folhas secas
e o vento
quer repouso e o teu corpo...

que o teu sonho foi sempre sonho
e o teu tempo nunca foi tempo