quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O homem nove dezoito

agora sou um copo de água
tão transparente e inodor como um copo de água

a àgua molda-se e esse copo vazio de sabor
a esse corpo vazio sem valor

sou um brinquedo
nada mais que um brinquedo
salobro

perco a razão de ser porque não sou o que sou
sou o desperdício de mim próprio
consumo-me sem chama e cada minuto em que não sou eu próprio, é mais um copo

preocupo-me com as estrelas e com as ondas do mar
com a chuva e os ventos que existem sem mim

sou eu por 24
as horas do dia em que me encaixo nos ponteiros do relógio de um deus indiferente
compassos de uma melodia quadrada de 1/24

(amanhã vai ser diferente)

amanhã vou ser eu sobre o tempo
porque eu sou mais que o tempo

terça-feira, 14 de outubro de 2008

à velocidade do tempo

estas páginas vazias
é o tempo a passar por mim
não me toca, é uma brisa que não me diz palavra
contorna-me sem mãos e sem traço deixando
só o vestígio dos dias

os dias fazem-me cada vez mais antigo

não me sinto coleccionável
eu devagar,
e o tempo cada vez mais depressa

já quase não há lugares onde o tempo seja eterno

tenho medo das alturas, mas quando as desafio o tempo é verdadeiro
e passa
à velocidade do tempo

na banheira deslizo e mergulho a cabeça
lentamente
sustenho a respiração e o tempo
é à velocidade do tempo
abro os olhos, que ficam a olhar para o tecto
ou para lá dele
é tudo branco