domingo, 17 de agosto de 2008

ensaio sobre a lucidez

cada vez é mais real
(quero ver onde isto vai parar)
esta lucidez é tão generosa que não vejo
onde me vai ser cobrado tudo isto

é como se estivesse sobre uma luz polar da antárctida
não sou capaz de cerrar os olhos

luz demais também nos impede de ver

amor
quero morrer nos braços do amor em que morri
em que se morre todas as manhãs
mas eu sei que esses braços fui eu que inventei...

é por saber tão bem ler esta verdade, que penso
que nunca morri em braços que não fossem os meus.
...é por isso que não morro em ninguém.
estou cansado.

talvez um dia destes me deixe enganar
e adormeça devagar nos braços de alguém.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

de vários tamanhos

somos todos humanos mas temos vários tamanhos.

somos do tamanho do poder de realizar os nossos sonhos
só podemos esperar sonhar ao alcance do nosso poder.
idealmente,
exactamente sobre o limite da nossa capacidade de sonhar.
pois de ambos os lados se queda o desespero.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

onde está a morte de um livro

tenho livros encostados ao fundo da prateleira
sobrepostos como corpos cansados
esvaídos de forças e de alma,
sem o saberem.
tenho livros que não sabem que nunca vão ser lidos.

nunca lho direi
porque a dor (aquela dor que os livros têm)
seria lenta e eterna.
o que fariam as páginas em tal desespero?
será que um dia, quando lido, se poderia ler o desespero nessas entrelinhas?

onde está a morte de um livro?

talvez morra apenas quando lido
quando a vida chega ao fim

[FIM]

o único fim é o da última página
depois disso a destruição

uma janela aberta e uma chuva intensa,
um cão que morde e saliva e espalha os restos pelo quarto

ou os vermes que lentamente o habitam
e o devoram... lentamente
de dentro para fora.
(como a mim)