chamava-se Alice
Alice de olhos verdes intensos
quer dizer, não eram verdes. verdes eram as lentes de contacto que usava
mas eram intensos
chegava a casa de uma longa noite de trabalho e os saltos (bem altos)
faziam-lhe doer os pés. um aperto e uma rigidez que a faziam ficar com aquele ar impaciente
só queria chegar a casa e atirar com eles
um duche bem quente
pés descalços no chão de madeira flutuante da sala
lcabelos negros e longos escorridos no sofá castanho e gasto da sala
e ver um filme
qualquer filme
(ou não eram longos os cabelos, eram extensões, mas eram negros)
apagava o cigarro no cinzeiro do carro e a beata luzia a espaços como se quisesse dizer que ainda não estava extinta a chama.
uma marca de batôn cor-de-rosa choque formava uns lábios falsos na escuridão
dentro em pouco o sinal estaria verde como as suas lentes de contacto
arrancava em direcção à casa escura onde Alberto a esperava.
a saia justa incomodava-a e dificultava a condução, a maquilhagem cansava-lhe a expressão.
no carro do lado, dois jovens com hormonas irrequietas e duas garrafas de cerveja mini nas mãos, apitavam e gesticulavam agitadamente
riam e não deixavam perceber se o que diziam a ela não seria apenas um para o outro.
os cabelos empinados e o nariz a condizer,
o brinco e a roupa à estrela de futebol
nada enganava
eles não teriam mais vinte e poucos anos de (imatur)idade
Alice fazia-lhes um enormíssimo manguito em resposta, o que nem um pouco os incomodou. pelo contrário, o entusiasmo ainda foi maior e não resistiram a segui-la pela marginal
apitando, fazendo sinais de luzes, conduzindo lado a lado e pedindo por gestos o número de telemóvel.
(és toda boa)
durou até se fartarem
durou até ao semáfero seguinte...
Alice desmontou do carro e os saltos bateram no chão com a força com que bateu a porta do carro
Alice era esguia e o vento moldava-lhe a roupa, frisando ainda mais o seu decote exagerado.
fechou devagar a porta de casa para não o acordar.
atirou as chaves para a poltrona, tirou os brincos que eram longos losangos cor-de-rosa e desceu dos saltos
(não atirou com eles)
umas contra as outras, as pulseiras "chocalhavam" as cores que faziam pandan com a mala e os sapatos e talvez até com os brincos
entrou no duche e já despida (de roupa e adereços) pensou que tinha que ir à manicure
amaciou o corpo com as mãos e lembrou-se, com um sorriso satisfeito, dos rapazes novos no carro do lado
estas unhas estão uma lástima!
as mesmas unhas de gel com que arranhou loucamente as costas do José
sorriu mais uma vez ao pensar na última noite de sexo bruto e selvagem
ele era irresistível quando a olhava
só de o ver...
bem vestido, bem falante,
aparecia sempre com o modelo do desportivo do momento. chegava e fazia furor.
as férias da moda o café da moda a discoteca da moda. o José tinha cartão e entrada livre em todo o lugar.
um charme trabalhado até ao relógio rolex a espreitar por baixo do punho da camisa ou o bronze de solário que lhe dourava o sorriso número 3
o José sabia tão bem o que dizer para a deixar de pernas trémulas
o José não era como o Alberto
o José tinha chama
segunda-feira, 30 de junho de 2008
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