quinta-feira, 10 de julho de 2008

cinquenta escudos

há quem diga que esta terra é terra de loucos
há quem diga que esta terra é a terra do vento
Eu acho que é a minha terra

há um dos que o dizem loucos
que usa uma pele de tez escura, barbas longas e um cabelo branco desgrenhado que nem chega bem a ser uma carapinha.
traz com ele sempre uma mochila às costas. pendurada... creio que, no braço esquerdo
o direito é aquele que leva a mão à boca,
quando passa à noite e pede um cigarro

"eu não fumo"
ele não insiste,
pede-me cinquenta escudos
da primeira vez fiquei surpreendido, não fui capaz de lhe responder pelo tempo que lhe deve ter parecido uma eternidade.
(escudos)
depois lá reagi, levando as mãos aos bolsos, entregando-lhe os cêntimos de que pude prescindir.

ele nunca insiste
pede com uma leveza que parece conversar
nem sei que palavras usa quando pede,
não sei se chega a pedir

mas ele continuou todas as vezes a pedir cinquenta escudos, e eu,
a dada altura, deixei de me perguntar se ele saberia que os escudos já não existem
pensei que talvez isso não importe,
que o pequeno tasco na rua escura e apertada junto à estação,
onde ele entrega os escudos em troca da jinjinha
talvez lá não importe se os escudos são escudos, ou cêntimos

era de esperar que ele incomodasse, mas a verdade
é que dou por mim a gostar de o ver.
costumo dar um passeio a pé depois de jantar (quando o vento o permite)
e eu gosto de o ver
ele é sempre tão educado a pedir.
apetece-me conversar com ele mas sou eu quem não quer incomodar

por vezes apanho-o sentado nalgum banco de jardim a olhar para uma folha de papel. pergunto-me se está a ler, se sabe ler
ele, com a garrafa de vinho escondida num saco de plástico,
leva-a à boca
mas nunca sem primeiro lançar um olhar vigilante para cada lado. talvez para ter a certeza de que está sozinho.
ali está ele por trás dos carros, a beber às escondidas

uma noite era véspera de natal e fui encontrá-lo
sozinho
sentado num banco, de costas curvadas e os cotovelos sobre os joelhos
com o rosto escondido entre as mãos
dessa vez não era a bebida que ele escondia dos olhares de quem passava
eram as lágrimas que o vi chorar

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