foi para ver-te correr que abri a porta
e sem saberes te segui até à rua
corrias com o cabelo liso e escorrido a pender-te até aos ombros
de uma cabeça oscilante
que deitavas para um lado e para outro, ao ritmo dos pés que batiam
no chão
como um tambor para o teu devaneio
os braços estavam esticados
e parecias tanto um boneco como a criança que ainda há em ti
quase podia ouvir a canção que só tu
ouvias e te fazia saltitar
lia-te a felicidade de onde estava...
e chorei.
tu sabes que às vezes eu choro
depois destes anos continuas a perguntar-me porquê.
eu respondo sempre que não estou a chorar
mas as lágrimas chamam-me mentiroso
tu não dizes nada
o silencio instala-se e ficamos sempre nesta terna cumplicidade
eu sei que tu sabes porque eu choro
mesmo que não me compreendas
quarta-feira, 28 de maio de 2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
Pertinácia
escavo um buraco com as mãos na terra
(entranha-se nas unhas que ficam negras)
e quanto mais escavo, mais longe quero ir.
sem sequer compreender ou pensar, que vou ter que fazer
alguma coisa com a terra
que se amontoa em meu redor.
(entranha-se nas unhas que ficam negras)
e quanto mais escavo, mais longe quero ir.
sem sequer compreender ou pensar, que vou ter que fazer
alguma coisa com a terra
que se amontoa em meu redor.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
ponteiros do relógio
olha o ponteiro dos segundos
(eu olho)
sei onde estás e o que fazes
mas ainda assim gosto de olhar o relógio no pulso.
mentira, não gosto,
mas olho
e no momento em que olho, eu não tenho alma
fugiu-me
ela é grande demais para que a tenha perdido ou
deixado nalgum lugar sem que me lembre
sei-o pelas coisas que com ela faço
mas a minha alma é estranha
porque ou está em mim ou está em ti
nunca está nas coisas.
eu acho que era normal termos a alma nas coisas:
agora no relógio, agora na sola dos sapatos, agora na chave que meto à porta
agora no isqueiro com que acendo o cigarro... olha...
agora ficava bonita neste fumo que se liberta e dança nos meus lábios
( )
(parece que escorre nas partículas do ar frio que me gela a cara e as mãos)
mas não
a minha alma ou está em mim ou em ti
nunca está nas coisas.
(eu olho)
sei onde estás e o que fazes
mas ainda assim gosto de olhar o relógio no pulso.
mentira, não gosto,
mas olho
e no momento em que olho, eu não tenho alma
fugiu-me
ela é grande demais para que a tenha perdido ou
deixado nalgum lugar sem que me lembre
sei-o pelas coisas que com ela faço
mas a minha alma é estranha
porque ou está em mim ou está em ti
nunca está nas coisas.
eu acho que era normal termos a alma nas coisas:
agora no relógio, agora na sola dos sapatos, agora na chave que meto à porta
agora no isqueiro com que acendo o cigarro... olha...
agora ficava bonita neste fumo que se liberta e dança nos meus lábios
( )
(parece que escorre nas partículas do ar frio que me gela a cara e as mãos)
mas não
a minha alma ou está em mim ou em ti
nunca está nas coisas.
domingo, 4 de maio de 2008
áfrica minha
estava a tomar um chá com a minha avó e sem saber como, a conversa foi parar aos tempos de áfrica
(falamos sempre dos tempos de áfrica)
em pequeno, lembro-me de insistir
"avó, conta-me uma história de àfrica" "conta aquela do leão" "conta a da gibóia" "conta aquelas da manhiça" "conta-me como o régulo ofereceu a sua casa ao avô quando a guerra chegou"
(conta-me todas avó... eu não estava lá)
conta-me todas as histórias até elas serem tão minhas como tuas.
estou em cada dia africano.
recordo todas as histórias e consigo ver as cores de tudo o que se passou.
não sonhei (não se sonha a cores) eu estive mesmo lá,
antes de ter nascido
cada vez que oiço as tuas histórias aumenta-me a dor
a dor de existir
ah soubesse ao menos escrever
se eu soubesse escrever tão bem como sei olhar...
quantas vezes pensei pedir a alguém com mais arte que eu
alguém que pudesse partilhar estas horas em que, à lareira, vejo tudo acontecer
áfrica tem tanto para contar
e tu tens tanto para contar avó...
o avô deixou-me tão cedo!
só me lembro de ele ver bastante mal.
(uma vez mal me viu a mim)
e lembro de chamar-me filósofo.
não é justo que toda esta áfrica se perca, só porque não tenho talento
então veio a tristeza
este mal estar em que só sei agoniar e entristecer
tanto mundo se perde quando lhe falta um narrador
quanta vida
é disto que a vida é feita
e é isto que me agonia na morte
o dever por cumprir,
o cedo demais para esquecer
nada é eterno, e essa é a injustiça das coisas.
todos os momentos deviam ser eternos, pelo menos, até alguém os poder eternizar
e todo este desgosto
esta dor de esquecimento do passado que não vivi
talvez me doa apenas, e mais, porque me atira que
também eu serei esquecido.
e ao que vejo, bem antes desta África que me fala...
um dia serei nada ou pó
e estas histórias serão como eu.
creio que não importará se aconteceram ou não
(eu certamente não importarei)
ninguém sobrevive
(falamos sempre dos tempos de áfrica)
em pequeno, lembro-me de insistir
"avó, conta-me uma história de àfrica" "conta aquela do leão" "conta a da gibóia" "conta aquelas da manhiça" "conta-me como o régulo ofereceu a sua casa ao avô quando a guerra chegou"
(conta-me todas avó... eu não estava lá)
conta-me todas as histórias até elas serem tão minhas como tuas.
estou em cada dia africano.
recordo todas as histórias e consigo ver as cores de tudo o que se passou.
não sonhei (não se sonha a cores) eu estive mesmo lá,
antes de ter nascido
cada vez que oiço as tuas histórias aumenta-me a dor
a dor de existir
ah soubesse ao menos escrever
se eu soubesse escrever tão bem como sei olhar...
quantas vezes pensei pedir a alguém com mais arte que eu
alguém que pudesse partilhar estas horas em que, à lareira, vejo tudo acontecer
áfrica tem tanto para contar
e tu tens tanto para contar avó...
o avô deixou-me tão cedo!
só me lembro de ele ver bastante mal.
(uma vez mal me viu a mim)
e lembro de chamar-me filósofo.
não é justo que toda esta áfrica se perca, só porque não tenho talento
então veio a tristeza
este mal estar em que só sei agoniar e entristecer
tanto mundo se perde quando lhe falta um narrador
quanta vida
é disto que a vida é feita
e é isto que me agonia na morte
o dever por cumprir,
o cedo demais para esquecer
nada é eterno, e essa é a injustiça das coisas.
todos os momentos deviam ser eternos, pelo menos, até alguém os poder eternizar
e todo este desgosto
esta dor de esquecimento do passado que não vivi
talvez me doa apenas, e mais, porque me atira que
também eu serei esquecido.
e ao que vejo, bem antes desta África que me fala...
um dia serei nada ou pó
e estas histórias serão como eu.
creio que não importará se aconteceram ou não
(eu certamente não importarei)
ninguém sobrevive
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