sexta-feira, 21 de maio de 2010

um dia deixo de ser o que nunca fui

hoje sou um caderno rasgado, onde costumavam
existir os números de telefone de pessoas que já
pouco importam. Agora pouco importam os sonhos
que viveram nas minhas páginas.
vividos, perdidos, e nenhum por chegar.

(sou os sonhos perdidos de Santiago)

por isso repouso rendido à negridão do asfalto,
onde o esquecimento me chove em gotas perseverantes,
que desbotam os números para cima do meu
branco amolecido.
as hesitações, as promessas de que fui um instrumento
(ou de que nunca cheguei a ser mas das quais certamente
fui testemunha)

(sou testemunha presencial dos sonhos perdidos de Santiago)

se me esvair junto com esta chuva, vou fundir-me nela,
vou certamente deixar
de ser o que nunca fui.

estou a desbotar para cima do meu branco.
e o tempo não para.
e os ponteiros do relógio não guardam
memórias do amanhã que podia ter sido hoje.
velha dor repetida.

2/2007

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